António Tavares, provedor da
Santa Casa da Misericórdia do Porto

"A missão do Provedor é estar sempre preparado para um compromisso entre a tradição e a modernidade"



António Tavares, provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto desde Agosto, reforçou a sua liderança tendo sido eleito no final de Novembro para o seu primeiro mandato efectivo à frente de uma das maiores e mais antigas instituições do país. Com ideias próprias e definidas sobre o presente e o futuro da Santa Casa, não esquece nunca o passado, e defende a preservação de cinco séculos de história. Em entrevista ao Rotary em Acção, António Tavares diz como tenta combater a crise e lembra que a Santa Casa tem sempre a porta aberta a novas parcerias.

Como está a Santa Casa da Misericórdia a enfrentar a crise?

A Santa Casa da Misericórdia do Porto, sendo uma instituição com cinco séculos de existência, é evidente que já se habituou a enfrentar as mais variadas crises, e muitas delas mais difíceis do que esta. Mas esta é uma crise severa porque é a primeira crise que destrói emprego. Perante esta situação, o que poderá fazer uma instituição cuja principal função e missão é ajudar os mais carenciados? Existem mecanismos por parte do Estado que entendemos que não há necessidade de replicar e por isso procuramos dar respostas em áreas em que o Estado estará menos à vontade, e até à própria autarquia. Refiro-me, por exemplo, à área da habitação social, que é inevitavelmente uma área onde aqui e ali podemos resolver situações que sejam mais graves, ou através de programas novos que estamos a introduzir. Um deles é o programa "sopa da noite", através do qual proporcionamos uma refeição quente a todas as pessoas que se dirijam à nossa "Casa da Rua", de onde fazemos também uma triagem de algumas pessoas que encaminhamos para a Segurança Social.

Também ajudamos a combater a crise porque somos um criador líquido de emprego. Sucessivamente criamos postos de trabalho, até porque vamos criando novos projectos. Colaboramos activamente com a Diocese do Porto e com o Sr. Bispo do Porto, também na procura de outras soluções. Temos uma presença em toda a linha, estrutural, e depois uma presença mais conjuntural com programas específicos para ajudar a minorar a crise.

Tem conseguido lançar novos projectos e novas ideias ou verifica-se alguma estagnação em tempo de crise?

A crise também deve ser vista como uma oportunidade. Não devemos olhar para a crise só com um discurso negativo. Quanto mais transmitimos para o exterior um discurso negativo, os mercados enervam-se, as taxas de juro sobem, o FMI pode vir, e isto pode significar a falência do país. Acho que devemos ter cuidado e ponderação no que dizemos. E dentro dessa ponderação devemos procurar oportunidades. Nós fazemos isso, não só com programas que lançamos de apoio conjuntural, mas também como vamos fazer agora mantendo os cabazes de Natal, apoiando empresas, instituições e fundamentalmente pessoas.

Vamos lançar agora o Centro de Dia para doentes de Alzheimer, que também procura dar resposta ao que o Estado não dá. Não vale a pena estarmos a replicar a capacidade instalada do Estado. Há uma vontade no Estado de dar resposta a múltiplos problemas, mas eu não acredito nessas soluções. Não podemos caminhar para a institucionalização dos idosos, das crianças, sem responsabilizar as famílias. Senão caminhamos para uma sociedade egoísta. Temos que criar uma sociedade onde haja o domínio da partilha e que se evite que os hospitais sejam soluções sociais para as pessoas, porque a solidão também é uma forma de exclusão. Devemos ter os idosos integrados. Provavelmente vamos ter que incentivar programas de voluntariado (e esta é uma linguagem familiar aos rotários), em que as pessoas possam partilhar o seu tempo livre no apoio aos mais carenciados, nomeadamente com os idosos.

Em relação aos mais novos, devemos criar-lhes condições para que eles tenham ferramentas para o futuro: o conhecimento, a educação. Portugal está claramente fora de algumas rotas internacionais e tem que se posicionar. Para isso temos que usar os poucos activos que temos, um dos quais é representado pelos nossos recursos humanos. Em determinadas circunstâncias são bons e estão bem preparados, mas enquanto continuarmos com um discurso de lamento, nunca mais conseguimos lá chegar. O discurso tem que ser positivo e temos que fazer coisas todos os dias. Na Santa Casa da Misericórdia a actualização tem sido permanente e nos vários momentos a Santa Casa foi dando respostas e de encontro às necessidades que as pessoas tinham.

Tem ideia de quantas pessoas beneficiam do apoio da Santa Casa da Misericórdia do Porto?

Directamente estará sempre na casa das duas mil pessoas. Mas indirectamente, envolvendo famílias, todos os nossos inquilinos, estamos a falar de cerca de seis mil pessoas.

Esse número tem aumentado nos últimos anos?

A pobreza infelizmente não diminui em Portugal. As condições de vida, as diferenças sociais, não diminuem. Temos que ter a coragem de assumir que, quer através do mercado de trabalho onde os salários são muito baixos, quer através de outras circunstâncias, as pessoas não saem da pobreza com a facilidade com que nós gostaríamos.

Que tipo de parcerias tem a Santa Casa com outras instituições? De que forma poderia ser feita uma parceria com o Rotary?

Nós temos um serviço de voluntariado interno, o "Manto Azul". Olhamos para os voluntários, não como mão-de-obra barata, mas como pessoas que trazem valor acrescentado. E esse valor pode ser equacionado das mais variadas formas: pode ser valor acrescentado de antigos professores, antigos quadros técnicos, profissionais de determinadas áreas; como também pode ser de pessoas que vêm dar do seu tempo para apoiarem pessoas que necessitam. Nesse sentido estamos sempre abertos a todas as situações. Ainda há pouco tempo alinhavamos o acordo com o Instituto D. António Ferreira Gomes, que procura exactamente envolver antigos profissionais de alguns sectores para que possam partilhar com os utentes a sua experiência e o seu saber adquirido. Obviamente que com os rotários estaremos sempre abertos a esse tipo de parceria.

Em que tipo de valências está a Santa Casa receptiva a voluntariado?

É um bocado difícil incluir umas e excluir outras. Quando estamos a falar do apoio aos sem-abrigo, ao apoio à mulher vítima de violência doméstica, aos idosos, às crianças, a projectos que envolvem deficientes, é difícil definir. Isto acaba por ficar sempre também de acordo com as opções pessoais dos voluntários e com as suas competências.

Que tipo de parcerias tem a Santa Casa neste momento com outras instituições?

As nossas parcerias são sempre parcerias abertas. Não temos parcerias institucionais porque nós próprios somos uma instituição e temos a nossa estrutura de voluntariado à qual as pessoas aderem e têm um código do voluntário para aqui poderem colaborar.

Acredita que a missão da Santa Casa da Misericórdia do Porto se tem alterado ao longo dos anos?

A ideia base, as 14 obras de Misericórdia, as 7 obras espirituais e as 7 obras corporais, mantém-se, como é evidente. Há uma base, uma matriz comum. Mas é evidente que ao longo do tempo as coisas tiveram que se adaptar. Quando a Santa Casa abriu as suas portas em 1499 era tudo diferente. No século XVII passou tudo a ser diferente também. A Santa Casa tinha a função de enterrar os mortos, os que não tinham quem lhes fizesse sepultura. Hoje temos que, obviamente, dar as novas respostas e as respostas que o nosso tempo exige.

Como consegue a Santa Casa aumentar os seus rendimentos para fazer face a maiores necessidades da população?

A Santa Casa tem essencialmente duas linhas de rendimento que são fundamentais para a sua actividade. Uma resulta dos protocolos que tem com o Estado e da rentabilização que faz com esses protocolos. Outra advém do património que tem.

A título pessoal, defende a linha orientadora que a Santa Casa actualmente tem ou pretende avançar com novas ideias e novos projectos?

A missão do Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto é estar permanentemente preparado para fazer um compromisso entre a tradição e a modernidade. A tradição naquilo que ela tem de positivo e de importante. Não se pode, numa estrutura quem tem mais anos do que os Estados Unidos ou o Brasil, romper com o seu passado. Orgulhamo-nos do passado mas é evidente que temos que preparar o futuro, e para isso temos que aprender com as lições do presente. A modernidade representa as respostas que a opinião pública, os cidadãos, estão à espera que se possa dar, num modelo de solidariedade e proximidade para com os cidadãos, nas situações em que o Estado não consegue estar na primeira linha.

De que é que sente mais orgulho na sua passagem pela Santa Casa?

Fundamentalmente sinto orgulho em ter contribuído para a criação desse espírito, dessa cultura de solidariedade, e de ter deixado projectos novos que vingaram e estão a andar. Alguns nasceram neste último triénio e vão com toda a certeza continuar o seu caminho. É evidente que nós temos um sonho sempre maior, que é o de vermos os problemas todos ultrapassados, temos consciência que é muito difícil de concretizar, mas acreditamos que no dia-a-dia, passo a passo, com grande espírito de solidariedade e de abertura ao próximo, vamos conseguir implementar novos projectos. O Museu da Santa Casa é um dos projectos que está na forja, a reabilitação do Parque da Prelada é um outro. São projectos que vão colocar a Santa Casa na linha da frente na área da cultura e serão projectos rentáveis para apoiar outros projectos. A reabilitação do Centro Hospitalar Conde de Ferreira e a colocação do INEM são outros projectos que fazem com que estejamos sempre em mudança e com muita dinâmica.

Quais apontaria como o principal defeito e a principal qualidade da instituição?

Sobre as qualidades é fácil responder. A principal qualidade é a proximidade, o amor ao próximo, a solidariedade, o carinho. O defeito provavelmente é não conseguirmos responder muitas vezes com a prontidão e com a solidariedade que gostaríamos, ou porque não temos meios ou porque não temos condições para o fazer.